segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Contra as reduções reconfortantes e as certezas pré-fabricadas das ideologias.

"Era a vertigem. Um atordoamento, um insuportável desejo de cair.
Eu poderia dizer que a vertigem é a embriaguez causada pela nossa própria fraqueza. Temos consciência dessa fraqueza mas não queremos resistir a ela e nos abandonar. Embriagamo-nos com ela, queremos ser mais fracos ainda, queremos desabar em plena rua, à vista de todos, queremos estar no chão, ainda mais baixo que o chão." (Milan Kundera em "A Insustentável Leveza do Ser")


(René Magritte - Las Vegas)


" ... quem começa duvidando de um detalhe acaba duvidando da própria vida." (M.K.,idem)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Coisas de blog, né?


Enfiiiim, vencendo a preguiça! E respondendo à indicação do Bruno, aí vai o print do meu desktop:



Acho q não vou indicar ninguém pra continuar com isso. Só respondi mesmo pq foi meu quase gêmeo, né?
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Ando tão sem criatividade pra escrever! Tanto que quando me aproximo da caneta pra arriscar, ela escorrega e foge de mim; se pudesse, ela diria "Não! Não me use para concretizar suas expectativas loucas, nem os gritos roucos de sua mente!". Falta-me inspiração, superação, convicção. Inspiração, talvez porque em poucos momentos da minha vida eu tive algo por que realmente se dedicar, se ocupar, se preocupar! Superação... Falta-me a força pra vencer a mim mesma, meus medos, angústias, vergonha, medo da rejeição. E convicção, mais que tudo! De meus ideais, planos, projetos, sonhos. De mim. Estar certa do que quero, do que gosto, de quem sou, do que sou. Do que é certo, do que é errado. Do que é querer, do que é poder. De até onde se pode sonhar. Até onde se pode acreditar.
Vivo a antítese de minh'alma a cada dia. E é sempre mais e mais.
Escrevo linhas sem nexo, meros pensamentos soltos. Por que escrevo? Nem eu mesma sei. Vontade de colocar pra fora um décimo da confusão que sou. Vontade de fazer com que eu mesma acorde, e volte a tona, não me deixando conformar com esse caos de pensamentos e sentimentos, não deixando a apatia tomar conta de mim.
Quero um dia parar de escrever sobre a confusão, o caos, a desordem de pensamentos e sentimentos. Quero escrever sobre coisas concretas! Quem sabe um dia. E então, talvez a caneta deixe de fugir.


domingo, 13 de janeiro de 2008

Back in black, swethearts.



De volta, após alguns dias de ausência!
Em primeiro lugar, quero agradecer os presentinhos recém-recebidos da B!ah e da Janete!
Bom, então vou indicar a Rafa ao selo de "Blog Cabeça" ->






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Vou postar um texto q não é meu, nem de nenhum escritor famoso. Mas é de um graaande escritor. E, nas horas vagas, meu melhor amigo. O melhor do mundo. Nem pedi autorização para publicá-lo, mas deixarei os créditos; é q foi impossível não postá-lo após descobrir esse texto inédito aqui, perdido na confusão dos meus documentos. E logo esse, q foi feito pra mim. Ele não me disse isso, mas só eu poderia saber o porquê. Sem mais delongas, aí está:

No meio dos papéis


Cada um coleciona o que gosta, não? Insetos, tampinhas, selos, figurinhas... O Wando coleciona calcinhas; alguns, mais afortunados, colecionam carros; e os mais simplórios, placas. Tem quem colecione cartões de natal, meias sem par, receitas de bolo, bandeiras, pedras, beijos. Existem milhares de classes de colecionadores, e infinitas sub-classes! Por exemplo, existem os que colecionam bichos de pelúcia; mas existem especialistas, colecionadores de espécies, os que colecionam só girafas, ou ursos, ou sapos, ou elefantes. Sempre quis colecionar chaves. E não importa o quê se colecione, sempre será algo especial.

Eu coleciono trechos.

Palavras soltas, versos, crônicas de páginas, recados, bilhetes, anotações, pensamentos, recortes de jornais, ditos populares, aforismos, artigos, cartas, mensagens. Tem letras? Arranjadas de forma especial, única e com maestria? Posso citar? Entra pra minha coleção. Rótulos de embalagens engraçadas, panfletos mal escritos, frases de caminhão, piadas de bar... Gostei? Peguei.

E, embora meu arquivamento não seja meticuloso, sempre lembro onde está um pedacinho de papel no meio de milhões de outros. Aliás, isso me deixa deprimido, porque, mesmo que eu busque alternativas (como guardanapos, papel de pão, calendários velhos, bordas de livros) sempre uso papel compulsoriamente. E penso nas árvores. Então, fica aqui meu apelo ao desenvolvimento da tecnologia portátil e acessível.

E... Onde estava mesmo? Sim, na minha coleção!

Vasculhando minhas preciosidades outro dia encontrei algo especial. Uma raridade que havia se perdido, um trecho confiado a mim por uma amiga e que com carinho havia guardado, mas esquecido; minha dracma. E qual foi minha alegria ao encontrá-lo! Li três ou treze vezes o papel até que as palavras ficasse gravadas na mente, e pra pôr o leitor a parte transcrevo elas agora.

“Mulheres são como maçãs em árvores: as melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore...”

Mas faltava uma parte. Afinal, que colecionador era eu? É como guardar um selo sem cola, colecionar relógios e ter um sem números, ter um Mickey sem orelhas na coleção, é como se o Wando guardasse uma calcinha furada. Mas há uma razão! O Wando guardaria sim uma calcinha furada, mas só se ela significasse algo mais pra ele, quem sabe uma noite daquelas. Porque pra um colecionador a singularidade é tão importante como a quantidade. Todos queremos ter em nossas coleções algo especial, único, só nosso e de mais ninguém! É de troféus que estamos falando.

E eu tinha o meu. Aquele texto trazia também o sorriso debochado de uma garota, um desafio de terminá-lo, minha honra em jogo. Eu o tinha guardado porque tinha um desafio, encerrar com um final digno dos gênios da literatura; tinha que criar algo simples, mas inteligente, sucinto, mas de impacto. Tinha que realizar o impossível pra mostrar a mocinha quem eu era.

Guardei-o só. Não acho que sou capaz de terminá-lo. É brilhante demais pra mim e só o guardei. Talvez pra provar que não sou escritor ou pra lembrar que só coleciono chaves de ouro, não as crio.


Wendell Máximo.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Como chegar até as nuvens com os pés no chão?

(Vladimir Kush)

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Cocktail Party

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste por que vocês são burros e feios
E não morrem nunca…

Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.

E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!

Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)
Desce o crepúsculo

E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças
d’água,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

(Mário Quintana)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Feliz Ano Velho.

Bem. Chegou o dia. O dia do ano em que todo mundo comemora, faz promessas que nunca cumpre, se enche de expectativas. Sinceramente, ano novo é pra mim como qualquer outro dia do ano. Não sinto aquela comoção que todos sentem, não sinto a mínima vontade de comemorar. Foi-se o tempo em que eu via graça em tudo isso. Belo? No máximo a queima dos fogos; que pra mim só é usada pra ludibriar as pessoas, fazê-las criar ainda mais esperanças, expectativas que não se concretizarão.
Ano novo pra mim, é no máximo, retrospectiva. É mais um "Adeus ano velho", com um quê de nostalgia, ainda que o ano velho não tenha sido de todo bom. Não, não é frustração. É apenas conclusão de que todos os "anos novos" são iguais; as mesmas esperanças, expectativas, promessas. Eu poderia começar com "Em 2008 pararei de roer as unhas.", mas de que ia adiantar, visto que desde que comecei a roê-las tenho prometido em todos os anos novos e até hoje não cumpri? Ou então poderia ser um pouco mais abstrata, mais sonhadora, embora isso não combine tanto comigo mais. Então, eu diria "Em 2008 não vou magoar aquela pessoa, não vou brigar com os meus amigos verdadeiros, não vou buscar a felicidade naqueles que estão longe." . Mas de que adiantaria? Se todos os meus anos são iguais? Minhas rotinas às vezes mudam, minhas companhias mudam constantemente; mas eu continuo a mesma. E por mais que tenha mudado, ou ainda mude, vejo que em minha vida pouco mudou. Talvez tenha mudado muito meu jeito de pensar, mas pouco meu jeito de agir. E infelizmente, não creio mais naquela auto-ajuda barata, que outrora ao menos me dava um certo alento, vontade de mudar. Não tenho certeza alguma do que sou, do que acredito, do que devo fazer e acreditar. Então continuarei cometendo os mesmos erros, enganando a mim mesma todos os dias com promessas e propósitos que não cumprirei; magoando as pessoas que realmente amo, e amando surrealmente as pessoas erradas.
Essa é minha vida, e ela apenas se mostra mais próxima do fim a cada ano novo.

"E as mãos do homem não têm mais sentido
Do que imitar as raízes sobre a terra."
(Frederico García Lorca)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

E alguma coisa a gente tem que amar, mas o que eu não sei mais.

Os Amantes - Reneé Magritte
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Amor, então,

também acaba?

Não, que eu saiba.

O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima

que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

(Leminski)

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Não sabia que era lobo também.

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Meu Deus! Sabe aquele dia em q tá tudo bem, mas tá sem graça... Parece q falta alguma coisa... Então, uma surpresa boa te dá uma injeção de ânimo! Um livro, uma carta e um cartão. Dedéu, se um dia tiver noção do quanto vc é importante pra mim...! Sua amizade é uma coisa tão rara, um tesouro pra mim. E não há distância nesse mundo q há de ser obstáculo!
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Hoje, a única coisa que sinto vontade de dizer é q tantas vezes somos levados a desacreditar. Da vida, das pessoas, de nós. Mas as vezes a vida nos prega peças q nos mostram o quanto tudo é possível; podemos acreditar nas pessoas (não em todas, mas em poucas e boas), podemos nos entregar, podemos confiar. Esse ano, mudei tanto e aprendi tantas coisas! Enquanto ouço a música de Chico que diz que Carolina guarda a dor de todo esse mundo em seus olhos fundos, vejo que sim, o tempo passou na janela, e só Carolina não viu.
E como nunca é tarde para encontrarmos a nós mesmos, e nos tornarmos quem somos (meu eterno Genói hoios essi mathon), lembro-me agora de como tudo começou. Lembro-me como se fosse ontem, do dia em que certo lobo entrou em minha vida. Ele não fez nada; sua simples existência, seu jeito de ser me mudou. E não, não foi nenhum tipo de paixão platônica como alguns interpretaram. Admiração de verdade, e não por um santo. Por um lobo, sim. E bem, não vem ao caso o capítulo dos porquês.
E, indiretamente ou não, esse lobo me trouxe algumas das pessoas mais incríveis que eu já pude conhecer! Aqueles que me aceitaram sem mal me conhecer, e não me pediram pra mudar! Me acolheram, e eram as pessoas pelas quais eu esperava há muito. E eram as pessoas que eu queria ser. E, acima de tudo, os amigos dos sonhos (literalmente).
Desde então, posso dizer que eu evolui. Não exatamente pra melhor, mas eu simplesmente não posso dizer q sou a mesma pessoa. E além de toda minha transformação, aprendi duas coisas: em primeiro lugar, que sempre há um lugar e as pessoas perfeitas esperando por você, não importa por quanto tempo você tenha que procurá-las ou esperá-las, e não importa quantas vezes você quebre a cara encontrando pessoas e descobrindo que ainda não são aquelas. Em segundo lugar, o mais importante: sonhos se realizam, sim.

Quero dizer, por fim, que o digo por experiência própria; vários deles se realizaram pra mim esse ano. E que, embora esse texto tenha um que de retrospectiva, tenha cara de texto de ano novo, foi muito do "espírito do Natal" que me inspirou toda essa reflexão; junto com a leitura do livro, do livro do lobo, que passou a ser nosso também.

♪Honey you are a rock
Upon which I stand
And I came here to talk
I hope you understand...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Cause I just wanna fly.

Bom, aqui vou eu na minha promessa a mim mesma e a alguns dos meus de que iria escrever alguma coisa pra postar aqui. O Wendell me disse que minha escrita melhorou exponencialmente. Mas tanto faz, visto q NADA elevado a qualquer coisa vai ser sempre nada.
Enfim, como eu digo sempre (ou melhor, como Cazuza diz)... Escrevo pra espantar a solidão e meus pensamentos... Pare, Carol, pare de citar. Você se prometeu produzir. Escrevo por pensar que é bom registrar os pensamentos pra ler daqui a uns anos, nem que seja pra ler e dizer: - Como era boba aquela menina!
Escrevo por pensar na vida, pensar até demais... Mesmo sabendo que pensar demais nem sempre me faz bem... Mas faz parte da vida, faz parte de nós (lobos, se é que eu posso me definir assim).
Escrevo por estar com a cabeça cheia de planos e expectativas (plausíveis ou não), embora com a sensação q não é hora de compartilhá-los com muitos. Por desacreditar de vez do amor perfeito, mas por acreditar cada vez mais nos sonhos, acreditar q é possível realizá-los sim. E acreditar na minha estória, e que ela será bela no fim. E no meio. E no começo também, embora não tenha visto com esses olhos até então.
O meu mundo começa agora, e quero e vou fazer dele o melhor mundo do mundo!

E embora esse pequeno texto tenha ficado um graaande lixo, não me importa, eu já sabia q seria. E ainda assim estou feliz, pq ele saiu, e foi mais fácil do q imaginei.



Imagem de Mark Ryden. Dispensa comentários, é um pouco de mim.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ideas are bulletproof.

Quando eu tiver setenta anos

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

(Leminski)


Tá, eu prometo q vou tentar escrever alguma coisa, eu mesma, pra postar aqui.
Mas eu tive q postar essa poesia q o Gus me mostrou, e q tenho q concordar: tem tudo a ver com nossa vida ultimamente. Beijos meu sergipano preferido camaleão polifórmico danç... enfim.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

...to save you from your old ways.

Back in black.
Viagem perfeeeita, num tem nem o q dizer.
Vide fotolog ou album do orkut.


TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres

Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.

Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.

Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.


Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.


In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.